Conteúdo digital e identidade racial

O Rio 2C (Rio Creative Conference) promoveu no dia 04 de abril de 2018 um debate sobre a questão racial nos conteúdos audiovisuais no painel “Influenciadores digitais e diversidade”. Mediado por Luana Génot, fundadora do ID_BR (Instituto Identidades do Brasil), teve também a participação da jornalista Alinne Prado, da empresária Egnalda Côrtes e da youtuber Gabi Oliveira. As quatro mulheres negras têm em comum a luta em favor da equidade racial e muitas histórias de preconceito sofrido na vida e na profissão.

Alinne começa destacando que a internet é um excelente espaço de divulgação da questão racial. Citou como exemplo o vídeo de Gabi Oliveira chamado “Tour Pelo Meu Rosto (com mais de 400 mil visualizações em menos de três meses) onde ela explora detalhes de seus “traços negróides”, rejeitados pelos padrões de beleza estabelecidos. Os vídeos de Gabi, segundo Alinne, servem como referência para que outras jovens negras se identifiquem e reconheçam sua própria beleza.

Gabi Oliveira conta que ela mesma se identificou ao assistir um documentário onde a personagem usava pregador no nariz para tentar afiná-lo. Ela também tinha usado pregador no nariz durante parte da infância e se surpreendeu ao ver o mesmo comportamento em outra pessoa. Segundo ela, a mídia tradicional criou um estereótipo da beleza negra, personificado nos traços finos e cabelos cacheados da atriz Taís Araújo, que levam muitas meninas a produzir mutilações no próprio corpo em busca de obter uma beleza minimamente aceitável pelo senso comum. Gabi relata que começou a usar produtos químicos no cabelo a partir dos quatro anos de idade, o que lhe gerou várias queimaduras na infância.

Egnalda, que trabalha com youtubers negros, conta que seu filho Pedro Henrique tem um canal no YouTube, chamado PhCôrtes, sobre heróis negros presentes na história e nas artes. Para ela, canais como o de Gabi e de PH tem o poder de transformar o outro ao tratar de temas esquecidos pela mídia tradicional. Pedro Henrique pensou em desistir de ser youtuber, porque, segundo Egnalda, “ele não era igual aos outros youtubers”. Este relato demonstra que, mesmo em um ambiente teoricamente mais democrático, a diversidade ainda está longe do ideal, a ponto de um adolescente negro não conseguir se identificar com os outros youtubers.

“Quero trazer narrativas novas para evitar a narrativa única”

Gabi, que só começou a fazer vídeos para o YouTube porque ficou desempregada, pretende construir conteúdos que promovam a “normalização da pessoa negra”: “Falo de questões raciais, mas também contei do meu intercâmbio, porque isso é normal. Meninas negras fazem intercâmbio. Quero trazer narrativas novas para evitar a narrativa única”. Para ela, a discussão sobre equidade de gênero ainda está restrita a uma bolha e cita como exemplo o ator Bruno Gagliasso, que só entendeu a questão racial quando “o problema chegou na casa dele.”

Egnalda traz para o debate uma questão de ordem econômica: para que os canais dos youtubers sejam sustentáveis é preciso que eles obtenham remuneração suficiente. Como o valor obtido com as visualizações é muito baixo, Egnalda trabalha em busca de aproximar as marcas dos youtubers negros. Este trabalho passa pela conscientização das marcas, explicando a importância de se conectar com a questão racial. Ela aproveita para criticar o próprio evento Rio 2C por perpetuar uma visão eurocêntrica presente nos conteúdos audiovisuais e comenta que analisou a programação de cada painel e não encontrou a presença de nenhum painelista africano, contrastando com a presença de vários europeus e norte-americanos.

Encerrando o debate, Alinne Prado traça um paralelo com a cultura alemã de levar seus filhos nos campos de concentração para que eles estejam sempre conectados com o passado e para que os erros não se repitam. O raciocínio de Alinne resume os discursos das demais painelistas sobre a necessidade de discutir as questões raciais no Brasil. O audiovisual e as possibilidades trazidas pelas novas mídias são uma excelente oportunidade para ampliar o debate, mas existe um longo caminho a ser percorrido: “nosso maior desafio é a educação”, conclui Alinne.

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Leandro Davico participou da Rio2C a convite da organização, na condição de aluno do curso de Mestrado em Criação e Produção de Conteúdos Digitais da ECO/UFRJ.

Você pode gostar também de: 5 lições que as marcas podem aprender com os YouTubers

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